Sargento da PM rompe resistências e vira regente de orquestra na Vila Kennedy

29/04/2018 11:44:52



Foi em novembro de 2015 que o sargento José Ricardo Moreira da Silva recebeu a missão mais prazerosa da sua vida: ensinar música na Vila Kennedy, Zona Oeste do Rio, na Unidade de Polícia Pacificadora do local. Morador de Campo Grande, que nunca tinha entrado na comunidade de Bangu, não sabia que ali estaria uma espécie de segunda casa de sua vida, o Teatro Mário Lago, vizinho à sede da UPP. Lá, o sargento e regente dá aulas para 90 crianças e jovens e é o responsável artístico pela primeira orquestra da favela, a Belo Oeste. Ele é o quinto Extraordinário, série de 20 personagens com histórias inspiradoras que foi criada para comemorar as duas décadas de EXTRA.

— A música tem o poder de abrir novos horizontes. Ela ensina disciplina, muda o comportamento das pessoas e transforma a forma de lidar com o outro ser humano — conta.

 

Sargento ensaia no Teatro Mário Lago
Sargento ensaia no Teatro Mário Lago Foto: Guilherme Pinto / Agência O Globo

 

O programa dá aulas de segunda à quinta, no período da tarde. Os ensaios são realizados na sexta-feira. Praticamente todos os 50 músicos que hoje compõe a orquestra são formados pelo sargento Moreira em parceria do soldado Thiago Britto Corrêa, que também toca na orquestra.

— O nosso regente não tem um estilo sargentão, não — brinca o soldado: — Ele é um amigaço que eu fiz aqui. E toda a molecada gosta dele.

 

E parece que gosta mesmo. A orquestra aproxima moradores da comunidade aos policiais militares — ideia inicial da UPP. A reportagem, sem saber, visitou a orquestra bem no dia do aniversário de Ricardo. Naquele dia, os músicos e pais fizeram uma festinha surpresa para o regente. A explicação é que ele faz o que gosta. O sargento nasceu num berço musical: o avô, sambista; o pai, trompetista de louvores evangélicos:

— Vivo com a música desde 10 anos — explica o sargento da UPP local.

A ideia da orquestra nasceu de uma conversa entre o agitador cultural Binho Cultura, e o capitão Carlos Pimenta Jr, subcomandante da Companhia de Músicos da Polícia Militar. Os dois compartilhavam o sonho de montar uma orquestra na região. Interessados em integrar o projeto (não há restrição de idade) ou fazer doações podem ligar para 2333-5408 ou 2333-5407.

 

PMs tocam com moradore da comunidade
PMs tocam com moradore da comunidade Foto: Guilherme Pinto / Agência O Globo

 

As aulas teóricas são lecionadas às segundas e terças, de manhã e de tarde. Às quartas e quintas, as aulas são práticas, nos mesmos horários. O programa não escolhe o aluno: não há limite de idade. Quem mora em outra comunidade também pode ir até o Teatro Mário Lago (Rua Jaime Redondo 2 , Vila Kennedy) para aprender música.

— No início, havia aquela distância normal entre aluno novo e professor. Ainda mais o aluno sabendo que o professor usava a farda da Polícia Militar. Mas com o tempo e a convivência do dia a dia, isso ficou para trás. Eles foram tendo uma outra ótica. Esse elo foi se estreitando. A gente foi trazendo música clássica para eles conhecerem. Agora, nossa orquestra toca Mozart, mas também toca Anitta e Maiara e Maraisa. Somos ecléticos. Eles escutam a minha sugestão e eu escuto a deles. Agora, não somos mais uma orquestra. Somos uma família. A gente criou laços, sabe? Perdeu a distância de professor e aluno. Eu sempre estudei em escola pública e entrei na Polícia Militar já com vontade de fazer ação social na música. Estou realizado com a nossa orquestra — diz o sargento.

 

Fonte Extra










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